Vizinhança segura: PM cria grupos no WhatsApp para aproximar vizinhos no combate à criminalidade em RO

Por Diêgo Holanda, G1 RO

STYLLYS MALHARIA

Com a popularização dos aplicativos de mensagem, grupos para todo tipo de situação surgiram nos celulares: família, igreja, faculdade, futebol, trabalho, dentre outros. Incentivados pela Polícia Militar (PM), moradores de alguns bairros de Porto Velho adotaram mais um grupo no WhatsApp: o da Vizinhança Segura. O objetivo é que os participantes dos grupos avisem a polícia sobre movimentações suspeitas ou crimes nas ruas onde moram.

A ideia de unir moradores e incentivar que eles vigiem casas vizinhas já era aplicada em outros estados, como Minas Gerais e Santa Catarina, mas foi adaptada à realidade de Porto Velho em meados de 2019.

Na capital, o projeto é desenvolvido pelo 5° Batalhão de Polícia Militar (5° BPM), responsável pela Zona Leste. As ruas Eurico Caruso e Henrique Soro, no bairro Igarapé, foram as primeiras beneficiadas com o projeto. Depois, o projeto foi ampliado e levado até algumas áreas rurais.

O comandante do 5º BPM, major Glauber Souto, explicou ao G1 os objetivos do projeto, dificuldades na implantação e resultados positivos.

Ele explica que o Vizinhança Segura faz parte do projeto Intervenção Integrada (I5), responsável por unir ações além do policiamento ostensivo a fim de reduzir a violência na Zona Leste de Porto Velho.

Entre as atividades estão a alfabetização para segurança, parceria com a Polícia Civil, e projetos sociais na Escola Estadual Ulisses Guimarães.

“Enquanto a gente achar que segurança é só PM, não vai resolver. Não podemos ver os problemas e não fazer nada”, afirma Glauber Souto.

Como os grupos surgem ?

O projeto para criar o grupo virtual sempre inicia no bairro com uma reunião de apresentação das atividades do batalhão.

Glauber acredita que a polícia, com a confiança da sociedade, pode dar impulso nessa união dos moradores. A reunião acontece na casa de um voluntário e anfitrião. “O projeto Vizinhança Segura coloca a comunidade como protagonista de um projeto de segurança”, diz.

Uma das dificuldades dos policiais no início do projeto virtual é conseguir o engajamento de todos os moradores, mas com o tempo isso melhora, segundo o major.

“Na primeira [reunião] normalmente vai pouca gente, mas a gente explica como é e eles mesmo fazem o trabalho de formiguinha e chamam os outros moradores e aos poucos os outros vão participando”, explica.

Inserção no grupo

Depois da etapa de reuniões, os moradores são cadastrados e nessa fase, antes de serem inseridos no grupo, é verificado se o morador tem ou não ligação com atos criminosos. Os administradores são os próprios policiais.

Além da segurança, Glauber diz que o projeto proporciona os moradores conhecerem uns aos outros, pois atualmente é comum que apenas os moradores mais antigos saibam o nomes de quem vive na casa ao lado.

Em uma das conversas do grupo, por exemplo, moradores comentam uma tentativa de roubo e propõe a colocação de câmeras na área.

Atualmente, o projeto abrange duas ruas do bairro Aponiã, Vila Codaron, KM 13 e Jardim Santana. A expansão do projeto na área urbana aconteceu no Jardim Santana. Neste último, apenas em um mês de 2018 foram 68 roubos registrados.

Resultados

“O policial está lá conhecendo a população e os prolemas dela, ele cria empatia. A confiança no policial é recíproca. Então colocar sempre o mesmo policial dentro da mesma área patrulhando e conversando com a comunidade é a estratégia”, avalia o comandante.

Um dos exemplos positivos através do projeto é o caso de um vizinho que saiu de casa e não percebeu que o controle não foi acionado para fechar o portão eletrônico. O vizinho da frente viu a situação, colocou no grupo, encontrou o dono e avisou pra ele voltar e fechar o portão.

A dona de casa Auxiliadora Lopes é moradora de uma das ruas participantes do Vizinhança Segura, no bairro Aponiã. Ela comemora a redução nos roubos na rua e diz que a família experimentou na prática os resultados do grupo de vizinhos.

“Meu filho estava com prolema na moto e foi dar um tranco e saiu sem capacete e sem camisa. Ele ia no final da rua e já voltaria. Acho que os vizinhos viram e já passaram mensagem no grupo e a viatura veio e abordou ele e orientou para ele empurrar a moto até em casa”, recorda.

Um dos resultados mais expressivos, segundo a PM, está no bairro Jardim Santana, com 10 mil habitantes. O bairro é uma transição entre a área urbana e rural.

“Nós fomos pra lá com o projeto I5 e dentro dele colocamos o Vizinhança Segura. Agora, o WhatsApp é de um celular que fica dentro da viatura. Em três meses conseguimos bater 70% de redução de roubos”, comemora Glauber Souto.

Mesmo postando a mensagem sobre atitudes suspeitas no grupo, a orientação é que os participantes também chamem a polícia pelo telefone 190.

Mensagens de ‘bom dia’

Os maiores problemas enfrentados pelos administradores dos grupos são os envios de mensagens, por parte de moradores, com textos de “bom dia”, motivações, piadas e outras coisas que desviam o foco.

Para evitar esses problemas, as regras do grupo são apresentadas de forma clara na reunião de divulgação: apenas mensagens relacionadas com a segurança da área podem ser enviadas.

Até elogios aos trabalhos dos PM devem ser evitados; o objetivo é que um alerta de crime não se perca em meio aos textos desconexos.

Próximos passos do projeto

Os próximos passos do Vizinhança Segura são concluir a implantação do projeto no Jardim Santana e chegar ao bairros Mariana e Socialista, também na região leste da cidade. Atualmente são cerca de 5 mil moradores participando dos grupos.

Comunidades desassistidas

G1 percorreu a Vila Codaron e o KM 13 e alguns moradores disseram não conhecer o projeto. A PM diz que alguns moradores não comparecem na reunião de apresentação do projeto e não podem ser incluídos nos grupos.

Jéssica Meireles, da Vila Codaron elogia a ideia do Vizinhança Segura, mas reclama que o bairro ainda é desassistido pela PM. Um dos motivos é a distância. Composto por chácaras, a vila fica a 15 quilômetros do centro da capital.

“Até que no começo o projeto funcionou, mas depois ninguém vinha mais. A gente coloca no grupo as ocorrências e não vem nenhuma viatura verificar. A sensação de insegurança continua a mesma porque eles [policiais] não vêm. Se eles viessem era bom demais”, diz.

A PM informou que o patrulhamento na área está menor porque terminou o contrato de policiais da reserva remunerada, responsável por cobrir a região, enquanto outros estão de férias.

Além disso, uma patrulha rural que atendia a comunidade está desenvolvendo trabalhos em outra linha, em Candeias do Jamari (RO).

A corporação disse também que com transferências no efetivo, o policiamento será normalizado na região.